Luciano Siqueira: Justas interdições no carnaval libertário PDF Imprimir E-mail
07 de Fevereiro de 2012

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A festa libertária, quem diria, incorpora uma lista de proibições justamente para assegurar ao folião que quer legitimamente se divertir as condições para tal, sem o incômodo de práticas indevidas de porcos-espinhos.


É uma imensa festa que, como bem assinala a pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco, Rita de Cássia Barbosa de Araújo, autora do belíssimo artigo “Carnaval do Recife: a alegria guerreira” (revista Estudos Avançados – USP, abril de 1997), acumula rica tradição marcada por um sentido libertário.


No final do século XIX e início do século XX, só as elites participavam da festa, através do desfile de alegorias e clubes de máscaras, reservando-se ao populacho o papel de simples expectador. Com o surgimento de agremiações populares destinadas a lutar pelo direito de brincar, abrindo alas e arrostando a norma excludente e a repressão policial, pouco a pouco as multidões ocuparam seu espaço nas praças e ruas do Recife. Agremiações hoje centenárias, como Vassourinhas, Pás Douradas, Lavadeiras, Lenhadores e outras surgiram inspirados na luta por direitos corporativos e pelo anseio de participar dos folguedos.


Hoje, no Recife, em Olinda e muitos outros lugares de Pernambuco tem-se certamente o carnaval mais democrático do Brasil. Ao folião comum, bastam camiseta, bermuda e tênis, ou uma fantasia improvida ou não, ganhar as ruas e curtir a alegria geral. Com uma ressalva: nem tudo é permitido.


Há um
conjunto de interdições punitivas que a vida mostrou serem necessárias para coibir o mau uso da liberdade pelo pessoal que quer botar água no chope da maioria.


Som eletrônico nas ruas do sitio histórico de Olinda, já é proibido há alguns anos, precisamente porque praticamente impedia o livre trânsito das agremiações carnavalescas.

 

Outra prática abusiva: urinar na rua, que muita gente cheia de oxidrila na cuca gosta de fazer e outros nem tanto também, por pura preguiça de entrar na fila dos sanitários públicos químicos. A lavagem das ruas e ladeiras de Olinda faz-se todas as madrugadas porque a fedentina se torna insuportável. No bairro do Recife Antigo também.


Pior: além de urinarem ali mesmo, pegam o embalo se despem – talvez como modo extremo (sic) de proclamarem a liberdade.

 

E tem o abuso machista inaceitável: beijar à força, como se as mulheres tivessem que aceitar a “brincadeira” em nome da algazarra geral. Aí a punição pode ser pesada, pois pela legislação em vigor esse tipo de agressão pode ser tipificado como tentativa de estupro.

Isso para garantir o direito conquistado há pouco mais de um século com muito sangue, suor e cachaça.

 

Publicado no portal Brasil 247 e no Jornal da Besta Fubana

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